Cristo viveu, morreu e ressuscitou. Ressuscitado, apareceu aos apóstolos que duvidaram da Sua presença. Provou-lhes que era o Cristo vivo antes de partir uma vez mais. Vinte e um séculos depois continuamos a acreditar que Ele morreu para nos salvar e que um dia estaremos a Seu lado. No decurso destes vinte e um séculos propagámos a Palavra e a Salvação. Fomos ardinas da Sua vontade, tementes da Sua justiça, crentes do Seu amor. Fomos mais fortes que os apóstolos que com Ele conviveram e ainda assim d´Ele duvidaram. A nós Cristo não apareceu. A nós, discípulos de Tomé, Cristo deixou-nos a hercúlea tarefa de perpetuar a Sua doutrina, de repudiarmos o pecado, de praticarmos o amor em tempo de solicitações diversas, de incentivos apetitosos ao desvio. De nós espera-se que continuemos a perdoar aos nossos inimigos, em tempo de feroz inimizade, em tempo de fome e de pobreza, em tempo de guerras e de contrastes. Continuamos a martirizar-nos pelas nossa crises de fé, pela nossa falta de espiritualidade, pela nossa fraqueza face ao mundo materialista que nos rouba tempo às preces, à meditação, ao estudo, à tertúlia, aos outros, à vida. Nós, os filhos que nunca viram o Pai, procuramos a Sua presença e justificamos as Suas omissões. Vamo-nos procriando de acordo com a Sua vontade, vamos transmitindo aos nossos filhos o Seu baptismo e os outros sacramentos, damo-lhes a conhecer o maternal regaço da Sua casa, vamo-lhes exigindo o respeito, o amor, a entrega ao Pai ausente em tempo de virtualidade. E talvez assim eles O percebam, a esse Pai virtual que não responde às mensagens e que parece nunca ter tempo para estar on-line. Talvez assim eles O possam compreender, à luz dos pais que têm e que também quase nunca têm tempo para os acompanhar. Será esta uma promissora esperança da Sua aceitação? A comunhão virtual com a ausência, a fé pela fé no Companheiro ocupado, porventura com os últimos preparativos da casa onde nos acolherá. Que este Pai prepare à Sua direita o espaço condigno para receber filhos tão valentes aos quais não presenteou com os Seus milagres, com a Sua mão, com a Sua resposta.
Nós somos os pescadores dos mares poluídos, das águas possuídas que arrastam casas e filhos, os escravos do trabalho pela sobrevivência, os descrentes nos sistemas políticos e os mártires dos sistemas económicos. Somos os apóstolos pós-modernos que não herdaram sandálias nem óleos unguentes. Os reinterpretadores da Sua vinda adiada que se recriminam por se sentirem abandonados, os que olham as estrelas e rezam fervorosamente para que o Pai não tenha feito o log out. Carlos Cunha |
domingo, 20 de outubro de 2013
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